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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O que diz o escritor Sergio Carmach

Eu poderia começar dizendo que não é tarefa fácil para um homem comentar uma história de contornos femininos, que remete a sentimentos e anseios igualmente femininos, como a espera pelo amor ideal e o desejo de constituir uma família feliz. Mas isso seria preconceituoso e antiquado de minha parte, pois já vai longe o tempo em que os homens associavam emotividade a fraqueza. Hoje em dia, podemos admitir sem medo quando gostamos de algo repleto de sensibilidade e feminilidade. E foi exatamente o que aconteceu comigo ao ler Por Linhas Tortas, um romance belo, singelo e delicado.
A protagonista, Ester, é uma pessoa admirável, com quem me identifiquei totalmente. Ela é cabeça aberta, mas ao mesmo tempo madura; é carioca, mas adora dias frios e lugares bucólicos; é jovem, mas, além de avessa a baladas e academias de ginástica, ama a literatura; é advogada, mas abomina a formalidade de tratamento que existe no meio jurídico; é introspectiva, mas não tem um comportamento antissocial; é emotiva, mas nunca perde a sensatez; é bonita, mas insegura quanto à sua aparência; é frágil, mas consegue reunir forças nas adversidades; é brasileira, mas não gosta de futebol; e, para ela, conquistas materiais não visam status ou riqueza, servindo apenas para ajudá-la a alcançar o que realmente importa: paz e prazer espirituais. É com essa mulher de sonho – simples, autêntica e paradoxal no melhor sentido da palavra – que Cynthia constrói sua história.
O livro poderia ser resumido da seguinte forma. Ester – uma mulher tímida e culta, dona de ideias e gostos pouco convencionais – encontra seu grande amor na faculdade. Mas o destino interrompe sua caminhada rumo à felicidade, deixando-a completamente perdida. A partir daí, ela precisa reunir forças para enfrentar o mundo e, quem sabe, encontrar novamente o amor.

Se esse filme faz seu tipo, você adorará Por Linhas Tortas

Como se vê, o enredo é extremamente simples. De fato, Por Linhas Tortas não é um livro de reviravoltas, nem possui uma trama intrincada. É, sim, uma singela história de vida, cujo texto – narrado de forma direta e em primeira pessoa – poderia ser considerado quase um diário se não contivesse diálogos. A linguagem – sem ornatos, mas bonita e correta – cativa. Se fôssemos comparar o livro de Cynthia a filmes, poderíamos citar os encantadores Noites de Tormenta (baseado no romance de Nicholas Sparks) e Sob o Sol da Toscana, ambos com Diane Lane, que, aliás, daria uma Ester mais que perfeita.

A autora também merece crédito por ter resistido a uma tentação que acomete muitos escritores brasileiros. Em vez de ambientar sua história em cenários internacionais (mais glamourosos e interessantes, segundo muitos leitores), colocou seus personagens em terras tupiniquins. E esse livro é uma prova de que ambientações nacionais funcionam tão bem (ou até mais) que as internacionais. As descrições de Cynthia pintam lugares maravilhosos e cheios de magia na mente do leitor.

Ester seria o alter ego de Cynthia?

Em determinado ponto da leitura, fiquei preocupado. O discurso de Aretuza para reanimar a irmã Ester me pareceu impregnado de uma autoajuda paulocoelística, o que me provocou um princípio de urticária rs. Mas felizmente esse tom ficou restrito à fala da personagem e a esse ponto específico da história. E não podia ser diferente, já que a autora parece ser tão culta quanto a protagonista e faz referência em seu texto a um rol imenso de autores clássicos, como Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Jane Austen, Machado de Assis, Homero, Gabriel García Márquez, entre muitos outros. Aliás (não sei bem por que motivo), fiquei com uma forte impressão de que Ester é uma espécie de alter ego da Cynthia.
Dizem que resenhas longas em blogs literários afugentam os leitores. Então, embora eu ainda tenha muito a dizer sobre Por Linhas Tortas, vou encerrando por aqui. Para terminar, digo que esse é um livro maravilhosamente simples que se tornará simplesmente maravilhoso se lido no mesmo clima em que se assiste às comédias românticas protagonizadas por Diane Lane no cinema: um misto de emoção e leveza, temperado com uma pitada dramática. E não se incomode se seus olhos umedecerem vez por outra (mesmo se você for um machão de carteirinha).

http://sergiocarmach.blogspot.com/2012/01/resenha-por-linhas-tortas.html?spref=fb

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